"Quem é você?"
Sua voz treme.
“Onde está minha mãe?”
Sua mãe morreu há quarenta anos, eu diria.
Eu sou sua esposa.
Eu sou Maggie.
Lembrar?
Sou a garota para quem você segurou a porta na Brennan Manufacturing.
Aquela com quem você se casou na igreja presbiteriana.
Aquele que te deu um filho.
Mas não digo nada disso porque só o confundiria ainda mais.
"Estou aqui para te ajudar a se vestir", digo em vez disso.
Mantenha minha voz suave.
Não ameaçador.
Ele me deixa ajudá-lo a vestir a camisa.
Suas mãos tremem tanto que ele não consegue mais apertar os botões.
Quando isso começou?
Mês passado?
Semana passada?
O tempo parece distorcer quando você está vendo alguém desaparecer aos poucos.
O telefone toca enquanto estou preparando o café da manhã.
Harold está sentado à mesa, olhando para o nada.
Às vezes me pergunto o que ele vê.
Se ele estivesse de volta a 1975 passeando com um bebê chorando pela casa.
Ou talvez em 1982, quando abrimos um fundo universitário com dinheiro que poderia ter mudado nossas vidas.
Talvez ele esteja feliz em algum lugar.
Espero que ele esteja feliz em algum lugar.
"Olá?"
“Mãe, sou eu, Derek.”
Minhas mãos apertam o telefone com força.
Ele não liga há seis semanas.
Não desde que lhe contei que o pai dele perguntou por ele três vezes na terça-feira passada.
Perguntou onde estava seu filho.
Por que o filho dele não o visitou.
“Como vai o papai?”
A mesma pergunta que ele sempre faz.
Nunca pergunte: "Como você está se virando?"
Nunca pergunte: "Você precisa de ajuda?"
Nunca diga: "Posso ficar uns dias para você dormir?"
“Ele está piorando.”
Observo Harold tentando pegar sua xícara de café.
Perder.
Tente novamente.
“O médico disse que estamos entrando na fase final.”
Silêncio do outro lado da linha.
Ouço o tilintar do gelo num copo.
Risadas ao fundo.
Ele está tomando brunch.
Ou uma festa.
Ou uma daquelas coisas de networking que importam mais do que o pai moribundo dele.
“Isso é muito difícil, mãe. Sinto muito.”
Desculpe.
A palavra que as pessoas usam quando não querem dizer o que pensam.
Quando eles querem que você pare de falar sobre coisas desconfortáveis.
“Acho que você deveria vir me visitar.”
Eu odeio como minha voz soa.
Pequeno.
Implorando.
“Em breve. Enquanto ele ainda tiver momentos de lucidez.”
“Sim, com certeza. Deixe-me verificar minha agenda e já retorno.”
Ele não consulta sua agenda.
Ele não me responde.
Passam-se três semanas.
Harold para de comer alimentos sólidos.
A enfermeira do centro de cuidados paliativos, uma senhora gentil chamada Patrícia que cheira a lavanda, me mostra como ajudá-lo com os suplementos nutricionais.
Como virá-lo para que ele não desenvolva escaras.
Como mantê-lo confortável.
“Você está fazendo um trabalho incrível”, diz Patrícia numa tarde.
Ela está verificando os sinais vitais de Harold enquanto eu troco os lençóis dele.
“A maioria das pessoas não consegue lidar com isso sozinha.”
“Não estou sozinho.”
As palavras saem automaticamente.
“Meu filho ajuda.”
A expressão facial de Patricia é algo que não consigo decifrar.
Talvez compaixão.
Ou pena.
“Que bom. O apoio da família faz toda a diferença.”
Não conto para ela que Derek não vem aqui há oito meses.
Não conte a ela sobre as ligações telefônicas que duram três minutos.
Não conte a ela que meu filho está a duas horas de distância, vivendo a vida ao máximo enquanto o pai dele desaparece no esquecimento.
Outubro chega.
As folhas do lado de fora da janela do nosso quarto ficam douradas e vermelhas.
Harold adorava o outono.
Costumava juntar folhas em montes para Derek pular dentro.
Nosso menino dava gargalhadas estrondosas, e Harold fingia estar irritado, mas seus olhos sempre sorriam.
Eu ligo para Derek numa terça-feira.
Ele atende ao quinto toque.
“Mãe, está tudo bem?”
“Os médicos dizem que está na hora. Talvez em algumas semanas, não em meses.”
Mais silêncio.
Então, “Ok. Ok, entendi. Tentarei subir em breve.”
“O ‘em breve’ precisa ser agora, Derek.”
"Eu sei, eu sei. O trabalho está uma loucura agora. Estamos lançando uma nova campanha e eu sou o responsável por ela. Mas vou dar um jeito."
Ele não consegue entender nada.
Harold faleceu numa manhã de terça-feira de janeiro.
Cedo.
Tão cedo que o sol ainda nem nasceu completamente.
Ele está deitado na nossa cama, a mesma cama que compartilhamos há cinquenta e um anos, e sua respiração está mudando.
Fica raso.
Paradas.
Patrícia verifica o pulso e depois balança a cabeça suavemente.
“Ele se foi, Margaret. Sinto muito.”
Estou segurando a mão de Harold.
Ainda está quente.
Ainda parece ele mesmo.
Mas ele não está mais lá.
O homem que cantarolava canções de ninar, construiu fortunas e me amou incondicionalmente por meio século se foi.
E estou sozinho.
Ligo para Derek do telefone do centro de cuidados paliativos.
Minha cela fica em algum lugar lá embaixo.
Não importa.
Preciso contar ao nosso filho que o pai dele morreu.
Ele atende ao quarto toque.
“Oi, mãe. Tudo bem?”
“Derek.”
Minha voz falha.
“Seu pai se foi.”
Nada.
Apenas respirando do outro lado da linha.
“Derek?”
“Ai, meu Deus, quando?”
“Vinte minutos atrás.”
“Ele estava… ele sofreu?”
“Não. Ele partiu em paz.”
“Certo. Certo, isso é bom. Isso é… bom.”
Ele parece estranho.
Distante.
Como se ele estivesse lendo um roteiro.
“Quando será o funeral?”
“Sábado. Duas horas na Primeira Igreja Presbiteriana.”
O silêncio se prolonga tanto que acho que a ligação caiu.
“Este sábado?”
"Sim."
“Mãe, isso é muito em cima da hora.”
As palavras me atingiram como água gelada.
Aviso prévio curto.
O pai dele acabou de falecer e ele está preocupado com a sua agenda.
“Seu pai acabou de falecer, Derek. Faltam quatro dias para sábado.”
“Eu sei, eu sei. Somos só eu e a Vanessa que temos esse evento, o baile de inverno dos Hendersons. É importante para a minha carreira. Todos os executivos estarão lá.”
Não consigo falar.
Literalmente não consigo formar palavras.
"Olha, talvez possamos vir na sexta à noite e ir embora no sábado à noite. Perderíamos a maior parte do baile de gala, mas eu provavelmente ainda conseguiria ir à festa pós-baile no domingo. Deixa eu falar com a Vanessa."
“Seu pai está morto.”
Minha voz parece pertencer a outra pessoa.
Alguém mais difícil.
Mais frio.
"Eu sei, mãe. E estou triste, de verdade. Mas o papai não ia querer que a gente parasse nossas vidas, né? Ele ia querer que a gente fosse prático em relação a isso."
Prático.
Essa palavra pesa no meu peito como uma pedra, e fica mais pesada a cada respiração.
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