PARTE 1
O juiz fechou a pasta amarela e olhou para o menino sentado no meio da sala.
Mateo tinha 9 anos de idade.
Seus tênis gastos não chegavam ao chão, e mesmo assim ela mantinha as costas eretas, como se soubesse que não podia chorar naquela manhã.
Ao lado dela estava sua irmã de 6 anos, Sofia, agarrando uma boneca descalça contra o peito.
Em frente a eles, numa cadeira simples, estava Marisol Rivas.
Uma mulher de 34 anos, com o cabelo preso, unhas sem esmalte e uma blusa branca cuidadosamente passada a ferro na noite anterior.
Ela chegara de caminhão vinda de um bairro operário de Guadalajara, carregando uma sacola com documentos, biscoitos para os filhos e uma tristeza que já não cabia em seu rosto.
Do outro lado estava Ricardo Armenta.
Terno azul escuro.
Relógio muito caro.
Sapatos brilhantes.
O sorriso de um homem que nunca havia pedido permissão na vida.
Ele era dono de construtoras, restaurantes e três casas em áreas onde as pessoas falavam baixo para poderem se exibir mais.
O advogado dela foi o primeiro a se levantar.
—Meritíssimo, minha cliente pode oferecer às crianças estabilidade, escola particular, assistência médica, viagens, segurança e um lar adequado. A Sra. Rivas, com todo o respeito, vende comida em uma garagem e mora com a irmã.
Marisol baixou o olhar.
Não por vergonha.
Por coragem.
Durante 10 anos, ela suportou desprezo, longos silêncios, gritos a portas fechadas e presentes caros que surgiam após cada humilhação.
Mas agora, diante de todos, estavam reduzindo-a a uma pobre mulher.
Como se o amor fosse medido em metros quadrados.
Ricardo suspirou com uma tristeza fingida.
"Não quero tirar os filhos dela, Meritíssimo. Só quero salvá-los de uma vida de dificuldades. Marisol é uma boa mãe, sim, mas não está bem emocionalmente. Ela fica muito agitada. As crianças viram coisas terríveis."
Marisol levantou o rosto subitamente.
—Você causou as coisas ruins!
O juiz bateu com o punho na mesa.
—Sra. Rivas, peço o controle.
Ricardo não se virou.
Mas ele sorriu.
Um sorriso pequeno e penetrante que só Marisol conseguiu perceber.
Matthew também a viu.
O juiz ajustou os óculos.
—Mateo, preciso ouvir a sua opinião. Sem medo. Sem pressão. Com quem você quer morar? Com a sua mãe ou com o seu pai?
O quarto ficou frio.
Sofia começou a tremer.
Ricardo inclinou ligeiramente a cabeça na direção de Mateo, como se estivesse dando uma ordem silenciosa.
Marisol sentiu como se seu peito estivesse se partindo.
Eu sabia que Ricardo tinha levado as crianças para comer hambúrgueres, prometido a elas videogames, piscina, um quarto só para elas e férias em Cancún.
Ele também sabia que os havia assustado.
Ele disse a eles que, se escolhessem a mãe, viveriam comendo restos de comida.
Que ela acabaria ficando doente por causa dele.
Que os pobres sempre arrastavam todos os outros para baixo.
Mateo respirou fundo.
Ele se levantou.
—Meritíssimo… antes de responder, quero lhe mostrar algo.
O advogado de Ricardo franziu a testa.
—Que tipo de coisa?
Mateo colocou a mão na mochila velha que Marisol lhe comprara na feira de antiguidades.
Ricardo enrijeceu.
—Mateo, sente-se.
A criança não obedeceu.
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