Num Natal, Rosa cozinhou durante dois dias: bacalhau, romeritos (um tipo de verdura mexicana), presunto e ponche. Miguel chegou atrasado, olhou para a mesa e disse:
—Mãe, a Paulina não come coisas tão pesadas. Você sempre exagera.
Rosa se ofereceu para preparar outra coisa para ela. Paulina sorriu.
—Não se preocupe, Dona Rosa. Já jantamos mais cedo, por precaução.
No aniversário de cinquenta e nove anos de Rosa, Miguel prometeu levá-la para jantar em Tlaquepaque. Ela se arrumou cedo, vestindo um vestido azul que não usava há anos. Às seis horas, Miguel tocou a campainha.
—Não vou poder, mãe. Eu tenho um emprego.
Naquela noite, Julián a encontrou chorando na cozinha. No dia seguinte, uma foto no Facebook mostrava Miguel e Paulina em um churrasco com amigos. Não havia trabalho. Simplesmente não havia vontade.
Julian sabia e não fez nada.
A culpa o consumia agora, enquanto ele estava sentado encarando seu filho agressor.
A viatura parou do lado de fora. Dois policiais entraram: uma jovem policial e um comandante com bigode grisalho. O olhar do comandante foi direto para a bochecha de Rosa.
—Quem fez a ligação?
—Eu —disse Julian—. Meu filho bateu na mãe dele.
Miguel seguiu em frente.
—Foi uma discussão familiar. Minha mãe exagera em tudo. Não aconteceu nada de grave.
O comandante olhou para Rosa.
—Senhora, seu filho lhe bateu?
Por alguns segundos, Rosa encarou Miguel. Ele cerrou os dentes, como se ordenasse que ela se calasse. Paulina apenas balançou a cabeça em sinal de advertência.
Mas algo mudou em Rosa.
Ela retirou a mão da bochecha.
—Sim. Meu filho me deu um tapa.
Miguel abriu os olhos.
-Mãe!
—E a esposa dele aplaudiu— acrescentou Rosa, com a voz embargada. —Ela disse que eu tinha que aprender o meu lugar.
O policial anotou tudo.
Paulina tentou intervir.
—Senhor policial, não foi assim. Foi uma piada de mau gosto. Estávamos todos agitados.
O policial olhou para ela com severidade.
—Você acha que aplaudir um ataque é uma piada?
Paulina permaneceu em silêncio.
Miguel começou a entrar em desespero.
—Pai, por favor. Eu sou gerente na empresa. Se isso vazar, você vai arruinar a minha vida.
Julian sentiu uma dor profunda ao ouvir isso. Miguel não estava preocupado com a mãe, mas sim com a sua reputação.
"Você estragou tudo para si mesmo ao bater na mulher que lhe deu a vida", respondeu ele.
A polícia explicou a Miguel que ele tinha de os acompanhar para registar a queixa. Ele gritou, praguejou, disse que Julián era um velho amargurado, que Rosa o tinha provocado e que Paulina era a única que o compreendia.
Rosa estava chorando, mas não recuou.
Quando o levaram embora, Paulina caminhou em direção à porta atrás dele, mas antes de fazê-lo, virou-se para Rosa.
—Parabéns, Dona Rosa. Finalmente conseguiu o que queria: ficar com seu filho traumatizado.
Rosa olhou para cima.
—Não, Paulina. O que eu queria era que meu filho me respeitasse.
A porta se fechou.
A casa ficou em silêncio.
Naquela noite, depois de prestar depoimento, Rosa não conseguiu dormir. Julián também não. Às três da manhã, ela disse:
—Em que momento perdemos o controle?
Julian sentou-se ao lado dela.
—Talvez tenhamos perdido a cabeça cada vez que permitimos a falta de respeito, para não a perdermos completamente.
Dias depois, Miguel foi libertado, mas com uma ordem de restrição. Ele não podia se aproximar dos pais. A notícia se espalhou rapidamente pelo bairro e pela empresa onde trabalhava. Paulina ligou para Rosa chorando, já sem a arrogância de antes.
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