Charlie cuidou do funeral.
"Alô?" Minha voz saiu fraca quando finalmente respondi.
"Meryl, me desculpe por te chamar assim", disse a Sra. Dilmore, com a voz trêmula. "Encontrei algo na gaveta da minha escrivaninha hoje, e acho que você deveria vir para a escola imediatamente."
“Do que a senhora está falando, Sra. Dilmore?”
“É um envelope”, disse ele. “Tem seu nome nele. É do Owen.”
Ele apertou ainda mais a camisa. "De Owen?"
“Sim. Não sei como foi parar lá. Encontrei hoje. Mas está escrito à mão por ele.”
“Pertence a Owen.”
Não me lembro de ter encerrado a chamada. Só me lembro de ter levantado muito depressa e de sentir o coração a disparar na garganta.
Encontrei minha mãe na cozinha tomando uma xícara de café. Ela estava hospedada conosco desde o funeral porque eu ainda não estava me alimentando direito e continuava acordando no meio da noite chamando pelo meu filho.
"O que está acontecendo?", perguntou ela.
“A professora dele encontrou alguma coisa. O Owen me deixou alguma coisa, mãe.”
Seu rosto se transformou com aquela compreensão terna e melancólica que só outra mãe consegue demonstrar sem desviar o olhar.
Charlie estava no trabalho. O trabalho havia se tornado seu refúgio desde o funeral. Ele saía cedo, chegava tarde e falava muito pouco nesse meio tempo. Nem me deixava mais abraçá-lo. A distância entre nós deixara de ser uma dor solitária. Começara a parecer um quarto trancado no qual eu não conseguia entrar.
Ele nem me deixava mais abraçá-lo.
No semáforo, olhei para o pequeno pássaro de madeira pendurado no meu retrovisor e desabei em lágrimas. Owen o tinha feito para mim no último Dia das Mães, na aula de artesanato. As asas eram desiguais. O bico era torto.
Eu o havia chamado de bonito, e ele revirou os olhos e disse: "Mãe, você é legalmente obrigada a dizer isso!"
A escola estava exatamente igual quando cheguei. Era insuportável.
A Sra. Dilmore esperava perto da recepção, pálida. Suas mãos tremiam enquanto ela estendia um envelope branco. "Encontrei-o no fundo da gaveta da minha escrivaninha. Não sei como não o vi."
Peguei o papel com cuidado, como se pudesse estar danificado. Na frente, com a letra de Owen, estavam duas palavras: Para a mamãe.
Naquele exato momento, meus joelhos quase cederam.
“Encontrei-o no canto de trás da gaveta de baixo da minha escrivaninha.”
—Gostaria de se sentar? —Perguntou a Sra. Dilmore.
"Por favor", sussurrei.
Ele me conduziu a uma sala lateral vazia com uma única mesa, duas cadeiras e uma janela com vista para o campo onde Owen costumava correr pela grama quando pensava que eu não o estava vendo.
Uma parte de mim sabia que o que quer que eu estivesse carregando dentro de mim iria mudar alguma coisa, e de repente senti medo de outra mudança que eu não havia escolhido.
Deslizei um dedo por baixo da aba. Lá dentro havia uma folha de caderno dobrada. Assim que vi a caligrafia do meu filho, senti uma dor tão aguda no coração que precisei cobri-lo com a mão.
“Mãe, eu sabia que esta carta chegaria até você se algo me acontecesse. Você precisa saber a verdade. A verdade sobre o papai e o que vem acontecendo nestes últimos anos…”
De repente, senti medo diante de mais uma mudança que eu não havia escolhido.
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