PARTE 1: DESPEDIDA APÓS DEZOITO ANOS
Julian Whitaker olhou para mim como se eu não fosse nada mais do que uma cadeira antiquada que seu pai tivesse esquecido de jogar fora. Depois de dezoito anos cuidando do Sr. Whitaker, Julian me dispensou com quatrocentos dólares e ordenou que eu deixasse a propriedade antes do anoitecer. Três dias depois, o advogado de seu pai ligou, e o que ele revelou quase me fez desmaiar. Naquela manhã, a luz do sol inundava as altas janelas da mansão Whitaker enquanto eu colocava lírios frescos na mesa de centro do hall de entrada.
O Sr. Whitaker sempre quis flores em casa, e sem elas, a casa parecia dolorosamente vazia. Eu havia começado a trabalhar para ele quase 20 anos antes, quando ele já era viúvo. Ao longo dos anos, nos tornamos uma família incomum, apenas nós dois. Quando minha filha morreu, ele sentou-se em silêncio ao meu lado no balcão da cozinha. Ele não ofereceu conselhos nem consolo vazio. Simplesmente ficou ali porque entendia que, às vezes, o luto exige companhia, não palavras. Todas as segundas-feiras, ele perguntava sobre meu neto.
"Como vai o Danny, Marta? Ele ainda está desenhando aquelas naves espaciais?"
"Sim, senhor. Agora ele também está adicionando alienígenas."
"Certo. Diga a ele que eu quero ver um."
Uma semana antes de o Sr. Whitaker falecer, Danny havia desenhado para ele um foguete rodeado por alienígenas verdes. O próprio Sr. Whitaker o colou na geladeira. Eu estava me lembrando daquele momento quando a porta da frente bateu e Julian entrou no hall de entrada. Eu só tinha visto o filho do Sr. Whitaker algumas vezes em dezoito anos. Seu pai costumava sentar-se ao lado do telefone todos os domingos à noite, esperando por ligações que quase nunca chegavam. Julian olhou para mim sem me reconhecer.
"É Mary, certo? Ou Mara?"
“Marta, senhor.”
"Ótimo. Analisei os assuntos do meu pai. Vejo você no escritório em dez minutos."
Ela saiu antes que eu pudesse responder. O Sr. Whitaker havia me prometido que sempre cuidariam de mim, mas imaginei que ele estivesse apenas tentando consolar uma governanta idosa. Ajustei meu avental e fui para o escritório, onde Julian estava atrás da escrivaninha do pai, tamborilando um envelope branco na palma da mão.
“Serei breve. Não precisamos mais dos seus serviços.”
“Não entendo. Seu pai disse que sempre teria um lugar aqui.”
“Meu pai morreu.”
Suas palavras me afetaram mais do que eu esperava. Ele moveu o envelope em direção à mesa.
"São quatrocentos dólares. Uma semana de indenização. Mais do que a maioria dos trabalhadores domésticos receberia."
“Minha posição?”
“Marta, você é uma funcionária, não da família. Quero que você saia antes do pôr do sol.”
Dezoito anos de refeições, remédios, férias solitárias e conversas até altas horas da noite haviam se reduzido a quatrocentos dólares. Perguntei se podia levar o pequeno rádio que ele guardava na despensa. Julian disse que eu podia levar tudo o que realmente me pertencia. Perto da janela, havia uma fotografia emoldurada da casa ao pôr do sol. O Sr. Whitaker a havia me dado anos antes.
"Ele me disse que eu podia ficar com aquela foto."
Julian mal olhou para ele.
"Essa coisinha barata? Leva e vai embora."
Apertei a moldura contra o peito, sem saber que ela continha a única coisa que me protegeria. Lá em cima, dobrei o avental, guardei o rádio e embrulhei a fotografia num pano de prato. Miguel, o jardineiro, viu-me sair pela porta lateral.
"Onde você está indo?"
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