Durante 12 anos, levei mantimentos para meu vizinho de 84 anos todos os domingos. Após o funeral dele, seu advogado me entregou uma mala amassada, e o que havia dentro me fez tremer as mãos.

“É o que todos eles dizem.”

O sobrinho do meu falecido vizinho se afastou antes que eu pudesse responder, já levando o telefone ao ouvido como se nossa conversa não tivesse significado nada.

Fiquei ali observando os últimos enlutados se dirigirem para o estacionamento. Estava prestes a ir embora novamente quando outro homem entrou no meu caminho, segurando algo ao lado do corpo.

“Você é Anthony? O vizinho que costumava ajudar o Sr. Harrison?”

Assenti com a cabeça.

“Eu sou o Sr. Whitman. Eu era o advogado de Ezra.”

Ele levantou a outra mão e eu vi o que carregava. Era uma mala velha e surrada, o couro desbotado nos cantos e os fechos opacos pelo tempo.

“O Sr. Harrison me instruiu especificamente a entregar isso a você”, disse o Sr. Whitman. “Suas palavras foram muito claras. Tinha que ser algo privado e somente para você.”

Peguei com cuidado. Pesava mais do que eu esperava.

"Ele disse o que tem dentro?"

“Ele disse que você entenderia quando abrisse.”

Antes que eu pudesse perguntar qualquer outra coisa, senti alguém se aproximar de mim.

“O que é isso?”

Marcus atravessou o estacionamento rapidamente, o tédio anterior substituído por algo mais intenso.

“Seja o que for, pertence à propriedade”, insistiu Marcus.

O Sr. Whitman não hesitou.

“Na verdade, não, Marcus. As instruções do seu tio foram específicas e autenticadas em cartório. Esse item foi separado do espólio há anos.”

“Anos atrás?” A voz de Marcus se elevou. “Ele estava sendo manipulado! Essa mala fica!”

“Não”, disse o advogado, calmo como uma pedra. “E se tiver alguma preocupação, pode apresentá-la por escrito.”

O sobrinho de Ezra se virou para mim, e algo desagradável se instalou em seu olhar.

“Seja lá o que for que esteja aí dentro, eu vou descobrir. Não se acomode!”

Apertei a mala com mais força e passei por ele sem dizer uma palavra.

No carro, coloquei-o no banco do passageiro e fiquei sentado ali por um longo momento, com as duas mãos apoiadas no volante. Meu peito doía de um jeito que eu não sabia explicar.

Liguei o motor. Seja lá o que Ezra tivesse deixado para mim, eu devia a ele descobrir o que era.

Levei-o para casa, confusa e tomada por uma profunda tristeza.

Coloquei a mala sobre a mesa da cozinha e fiquei olhando para ela durante um minuto inteiro.

Claire, que não pôde comparecer ao funeral por causa do trabalho, ficou parada na porta com os braços cruzados, observando-me em silêncio.

“Abra”, disse ela.

As travas se abriram com um clique.

Lá dentro não havia dinheiro nem ouro, apenas uma pilha grossa de envelopes, dois álbuns de fotos e um diário de couro gasto.

Peguei a carta de cima. Estava escrita com a letra de Ezra e datada de 12 anos antes, do domingo em que tomamos café juntos pela primeira vez.

Depois disso, havia uma para cada domingo. Centenas delas. Mas ele nunca enviou nenhuma pelo correio.

 

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