Depois de cinco anos dando banho no meu marido paralítico, ouvi-o rir e dizer que eu era "uma enfermeira gratuita". Naquele dia eu não gritei... naquele dia comecei a tirar tudo dele sem que ele percebesse.

Ele ficou parado na entrada.

—Encontrei as gravações de áudio.

Eu olhei para ele.

-Qual deles?

—As que ele mandou para os amigos. Falando de você. De mim. De todo mundo.

Seu rosto estava pálido.

—Ele também me usou.

Eu não disse "Eu te avisei".

Não teria lhe adiantado nada.

-Desculpe.

Tomás baixou o olhar.

—Eu fui um idiota para você.

-Sim.

-Desculpe.

A notícia chegou tarde, mas chegou.

"Não sei o que fazer com esse pedido de desculpas", respondi. "Mas não lhe desejo mal."

Ele assentiu com a cabeça.

—Posso levar roupas para você no centro da cidade?

—Sim. Coordene com a administração. Não comigo.

Ele entendeu.

Aquilo foi o mais próximo que chegamos da paz.

Um ano depois, minha sala de estar já não parecia um quarto de hospital.

Coloquei uma poltrona amarela.

Comprei plantas.

Eu coloquei cortinas de cor clara.

Voltei a usar perfume.

Voltei a usar vestidos justos, não para agradar a ninguém, mas para me lembrar de que meu corpo não era apenas um instrumento de cuidado.

Também iniciei um curso de auxiliar de enfermagem.

Eu chorei no banheiro durante a primeira aula.

Eu achava que odiaria tudo relacionado a cuidar de alguém.

Mas não.

O que ela detestava era a demonstração de carinho sem respeito.

Cuidar incansavelmente.

Cuidar de alguém que zombava das minhas mãos enquanto eu dependia delas.

A professora falou sobre o colapso do cuidador e eu senti como se ela estivesse lendo a minha história em voz alta.

Eu não levantei a mão.

Ainda não.

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