PARTE 1
Foi o suficiente para Mauricio abrir a porta da casa dos pais e sentir que algo não fazia sentido.
A televisão estava ligada na sala.
Suas sobrinhas riram no tapete novo, cercadas por bonecas, batatas fritas e uma caixa de donuts.
Mas veio da cozinha outro som.
Água correndo.
Placas colidindo.
E então a voz áspera da mãe, como se estivesse repreendendo um funcionário:
"Corte bem, criança. Você não está aqui para enfeitar.
Mauricio ficou imóvel, com as chaves ainda na mão.
Ele vinha de uma reunião muito longa em Reforma, com a camisa grudada no corpo pelo calor e a cabeça cheia de brincos.
Mas tudo isso foi desligado quando ela deu três passos em direção à cozinha.
Lá estava Renata, sua filha de 6 anos, em pé em um banquinho de plástico azul.
As mangas ficaram molhadas até os cotovelos, os dedos vermelhos de sabão e os olhos inchados de tanto segurar as lágrimas.
À sua frente havia uma torre de pratos gordurosos.
Na sala, suas primas Abril e Jimena, de 7 e 5 anos, brincavam de casinha com um carrinho novo.
"Olhe para ela, parece uma criada", disse Abril, rindo baixinho.
Renata não respondeu.
Ele apenas olhou para baixo e continuamente esculpindo um copo, como se sua vida dependesse de não cometer erros.
Mauricio sentiu um golpe no peito.
Ele havia adotado Renata quando ela tinha 2 anos, após conhecê-la em um lar adotado em Ecatepec.
A garota falou mal.
Ele não pediu nada.
Ele apenas encarava todos como se já tivesse aprendido que o afeto era perigoso.
Mas no dia em que Mauricio se agachou na frente dela e Renata pegou seu dedo com a mãozinha, ele descobriu que não podia mais soltá-la.
Ele não se importava que seu pai, Don Armando, disse que criar o sangue dos outros era entrar em brigas.
Ele não se importava que sua mãe, Dona Glória, insistisse que ele ainda poderia se casar e ter "filhos próprios".
Ela não se importava que a irmã Paola fizesse caretas toda vez que Renata dizia "pai".
Maurício escolheu.
E desde então, aquela garota era seu lar.
O motivo dele.
Tudo dele.
O problema era que sua família nunca a escolheu.
Abril e Jimena eram trocadas de um lado para o outro, se gabavam, compravam vestidos para cada aniversário e eram chamadas de "minhas princesas" no Facebook.
Renata mal recebeu uma saudação seca.
Um beijo no ar.
Um olhar de compromisso.
Mauricio viu, é claro.
Mas ele se enganou achando que era um velho hábito, desajeitado, falta de tato.
Não crueldade.
Naquele sábado, ele deixou Renata com as avós porque tinha uma reunião urgente e Paola também havia levado as filhas.
Renata estava animada desde a manhã.
Ela colocou na mochila um caderno, 2 tangerinas e uma pulseira de contas que havia feita para a avó.
"Hoje você vai brincar com meus primos, né, papai?" ele disse.
Mauricio beijou sua testa.
"Claro, baixo." Volto cedo.
Mas ele voltou tarde.
E ela encontrou a filha lavando louça de novo enquanto as outras meninas brincavam.
"O que está acontecendo aqui?" Ele disse em uma voz tão baixa que todos se viraram.
Renata o viu e desceu do banco de repente.
Ele quase correu.
"Com licença, papai. Deixei cair um pouco de sabão.
Mauricio a carregou nos braços.
"Você não precisa se desculpar por nada.
Então, agitado para a mãe.
"Por que minha filha está lavando a louça?"
Dona Glória cruzou os braços, sem tanta vergonha.
"Ah, Mauricio, não comece com seus dramas. Só ensinamos ele a ajudar. Ninguém aqui vive de graça.
Uma cozinha congelou.
Mauricio pressionou Renata contra seu peito.
"De graça?"
Don Armando saiu da sala de jantar, limpando a boca com um guardanapo.
"Sua mãe está certa. As filhas da Paola são netas de verdade. Renata precisa entender que não é a mesma coisa.
Renata escondeu o rosto no pescoço do pai.
Mauricio sentiu a raiva subir pela garganta, queimando tudo.
Então Paola apareceu da sala, com um donut na mão.
"Ah, irmão, não exagere também. A garota precisa aprender qual é o seu lugar.
Mauricio especiar para ela.
Então, picante para os pais.
E com a voz quebrada pela raiva, ele disse algo que ninguém em casa esperava:
"Perfeito. Hoje vocês vão aprender quanto custar minha filha.
PARTE 2
Mauricio saiu de casa sem se despedir.
Ele não respondeu quando a mãe sabia que ele era ingrato.
Ele não se virou quando seu pai soltou:
"Para uma garota, você vai brincar com sua família.
Ele acabou de abrir o carro, sentou Renata no carrinho e prendeu o cinto de segurança com as mãos trêmulas.
A garota tinha uma mochila pressionada contra o peito.
Dentro, a pulseira de contas estava quebrada.
Ninguém queria recebê-la.
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