Sentei-me sozinha na primeira fila no funeral do meu marido.

Porque esse homem com o terno grande demais e os olhos gentis me trata como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo.

Ele chega em casa todas as noites às 18h15, me dá um beijo na bochecha e pergunta sobre o meu dia antes de sequer tocar no jornal.

Compramos uma casa.

Dois quartos.

Revestimento amarelo.

Estilo rancho.

O telhado goteja quando chove forte.

Harold promete consertar no próximo fim de semana.

Então, no mês que vem.

Então, no próximo verão.

Ele nunca conserta, mas tenta.

Isso importa.

Passam-se três anos.

Somos felizes de uma forma discreta, que não rende boas histórias.

Sem drama.

Sem emoção.

Só o Harold cantarolando enquanto lê o jornal e eu aprendendo a fazer o bolo de carne que ele adora, mesmo que eu o queime metade das vezes.

E então Derek aparece.

Três da manhã.

Fevereiro de 1980.

Não consigo dormir mais de quarenta minutos seguidos há seis semanas.

Derek grita.

Não são choros.

Gritos.

O pediatra chama isso de cólica.

Eu chamo isso de tortura.

Meu lindo bebê milagroso, que tentamos conceber por três anos, não para de chorar.

Nada adianta.

Não está balançando.

Não cantando.

Não está alimentando.

Não vai mudar.

Nada.

Harold aparece na porta do quarto das crianças.

O cabelo dele está espetado de um lado. Ele está usando a calça de pijama que comprei para ele no Natal e sem camisa porque o Derek vomitou nela uma hora atrás.

“Dêem-lhe aqui.”

Sua voz está rouca de exaustão.

“Você tem que trabalhar daqui a quatro horas.”

“Dê-o aqui, Maggie.”

Eu entrego nosso filho.

Nosso filho, gritando, com o rosto vermelho e incrivelmente pequeno.

O médico disse que não haveria mais filhos depois de Derek.

Tem algo a ver com meu útero.

Termos médicos que eu não entendi completamente.

Tudo o que eu sabia era que aquele bebê, aquele pequeno ser humano raivoso, era nossa única chance.

Harold caminha de um lado para o outro no corredor, contorna a sala de estar e atravessa a cozinha.

Ele cantarola.

Desafinado.

Uma música que eu não reconheço.

Talvez ele esteja inventando.

Os gritos de Derek se transformam em gemidos.

Então, silêncio.

Fico parada na porta observando meu marido salvar minha sanidade, uma volta de cada vez pela casa.

"Eu te amo", sussurro.

Harold olha para mim e dá aquele sorriso torto.

"Eu sei."

Quando o pai de Harold morre dois anos depois, herdamos 35 mil dólares.

É 1982.

Esse dinheiro poderia mudar tudo.

Carro novo.

Casa maior.

Talvez até mesmo umas férias de verdade em algum lugar onde nenhum de nós precise usar uniforme ou bater ponto.

Estamos sentados à mesa da cozinha, aquela de fórmica amarela que já estava na casa.

Derek tem quatro anos e está colorindo na outra ponta da sala com giz de cera que agora é mais cera do que papel.

“O que você quer fazer com isso?”, pergunta Harold.

Observo Derek, seus cabelos escuros que se encaracolam como os de Harold, suas pequenas mãos segurando o giz de cera azul, sua língua para fora, concentrada.

"Fundo para a faculdade", eu digo.

Os ombros de Harold relaxam como se eu tivesse dado a resposta certa para uma prova que nem sabia que ia fazer.

"Sim?"

"Sim."

Estendo a mão por cima da mesa e pego na dele.

“Nós conseguimos fazer nossa vida dar certo, mas Derek deveria ter tido todas as chances que nós não tivemos.”

Na semana seguinte, consigo um emprego de meio período na biblioteca municipal.

Organizando livros nas estantes.

Salário mínimo.

Minhas costas doem depois do primeiro turno.

A dor não cessou pelos próximos quinze anos.

Durante a época de declaração do imposto de renda, Harold trabalha nos fins de semana preparando declarações. Aos sábados à noite, ele chega em casa com manchas de tinta nos dedos e o rosto tomado pelo cansaço.

Comemos Hamburger Helper quatro noites por semana.

Usamos as mesmas roupas até que elas fiquem praticamente transparentes.

Nosso carro, o sedã com a ferrugem corroendo os para-lamas, faz barulhos terríveis, mas continua funcionando graças à pura força de vontade de Harold e à fita adesiva.

Mas Derek tem sapatos novos quando precisa deles.

Derek consegue o material escolar que a professora pediu.

Derek acompanha a turma na excursão ao museu de ciências, enquanto Harold e eu dividimos uma lata de sopa para o jantar.

Digo a mim mesma que é temporário.

Digo a mim mesma que um dia ele vai entender.

Digo a mim mesmo que sacrifício é o que os pais fazem.

Derek completa doze anos.

Então quinze.

Então, dezessete anos.

 

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