Quando cheguei em casa, tranquei a porta. Depois, empurrei uma cadeira contra ela, mais por hábito do que por lógica. Já não sabia se era medo ou coragem.
Coloquei as imagens de ultrassom sobre a mesa e fiquei olhando para elas por horas.
Duas formas pequenas.
Dois batimentos cardíacos.
Duas vidas.
Minha mãe chegou naquela tarde. Eu havia lhe enviado a foto com uma única frase.
São dois.
Ela entrou chorando e me abraçou sem perguntar nada.
Contei tudo para ele.
Vasectomia sem acompanhamento pós-operatório.
As doze semanas.
O segundo bebê.
O rosto de Diego.
O rosto de Paola.
Minha mãe ouviu com a calma de uma mulher que já tinha visto muita dor e sabia perfeitamente o que o silêncio podia esconder.
Quando terminei, ela colocou água para ferver para fazer chá.
“Agora você vai fazer três coisas”, disse ele.
"Que?"
“Coma. Durma. E ligue para um advogado.”
"Mãe-"
“Aquele homem já mostrou o que faz quando se sente encurralado. Ninguém vai andar descalço sobre cacos de vidro.”
No dia seguinte, Diego começou a ligar.
As dez primeiras vezes.
Então vinte.
Em seguida, as mensagens.
Me perdoe.
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